O Paço de Fráguas está intimamente ligado à família que, de entre outros apelidos, usa "Bandeira". O primeiro "Bandeira" foi Gonçalo Pires Zuzarte ou Suzarete, natural de Vale de Besteiros, no Bispado de Viseu. A atual construção do Séc. XVII deveu-se, provavelmente, à substituição da antiga residência do valente Gonçalo Pires da Bandeira, o herói da batalha de Toro. Esta casa solar rural, denominada Paço, apresenta-se como um exemplo claro da arquitetura chã rural portuguesa. A sua construção constitui-se como um modelo de sobriedade, com um risco muito simples, quase severo, praticamente depurado de ornatos. No centro ergue-se um velho padrão, grossa pedra cilíndrica de granito, de rude e arcaico talho, com cerca de metro e meio de altura, de onde pende uma pesada corrente de ferro, símbolo de antigo privilégio de senhores nobres: o direito de asilo.
Fráguas, pequeno povo da freguesia de Mosteiro de Fráguas (concelho de Tondela), situa-se a cerca de três quilómetros da estrada nacional que liga Canas de Santa Maria a Viseu. Do sítio denominado Santo Aleixo, por ali se encontrar à beira da rodovia a capela que tem por orago este santo, parte a estrada camarária no sentido do poente, a qual logo desce para Sabugosa, que atravessa, e vai passar por Fráguas seguindo pelo Ribeiro e Vilar para o campo de Besteiros no sopé do majestoso Caramulo. À ilharga dessa estrada camarária, do lado direito de quem vai para a serra, estadeia-se a casa solarenga conhecida pela designação de O PAÇO. O corpo do edifício, em ângulo reto, é constituído pela ala voltada ao nascente, com quatro janelas de varanda simetricamente dispostas, abertas para o terreiro que se alarga em quadrilátero na frente do solar. Dá-lhe acesso uma escada de pedra, em ângulo, com entrada para o salão nobre pela porta central, ao alto do balcão de granito patinado, onde o corrimão de voluta dupla põe uma nota de estilo e bom gosto. A ala restante, perpendicular à primeira, do lado norte, vai ligar à capela e nela se abrem duas janelas de peito de desenho vulgar. Nela se encontra a cozinha e seus anexos.
A fachada corrida, de estilo rústico antigo, sem particularidades arquitetónicas dignas de especial registo, destaca-se sobretudo pelo número janelas, sua conformação e recorte, pelo balcão central da escada, e as diversas portas das lojas de aspeto simples, rural. Do lado da estrada iluminam o salão nobre mais duas janelas de vão inteiro, no topo do alongado tramo principal. Em comunicação com a ala setentrional e no extremo da mesma, junto à entrada da quinta, eleva-se a capela de singela frontaria, que se destaca, no entanto, do ponto de vista arquitetónico, pelo desenho do portal, que denota certo gosto artístico, pelo frontão em bico em cujo vértice se eleva a cruz, e pelos cunhais coroados por pirâmides ornamentais. Na pilastra entre a capela e a casa, pompeia a pedra de ar- mas, de bom recorte, cercada de aparatoso paquife vegetalista. Um pouco mais distante, já no final da empena da capela, sobressai a típica sineta junto ao telhado. Entre esta e a pilastra rasga-se mais uma janela, mas esta gradeada e com dintel encurvado.
Do lado oposto à escada, ou seja, do lado nascente do terreiro, vê-se um bojudo tanque de granito de curioso delineamento, a que o tempo imprimiu feição de antiguidade e que a humidade cobriu de permanente musgo. No seu estilo, condicente com os restantes elementos da arquitetura do prédio, enquadra-se bem no conjunto daquele solar rural. Encosta ao muro, a meia distância entre a estrada e a entrada para a carreira da quinta. Quem por ali passa, a certas horas do dia, apenas ouve, ressoando no calmo ambiente campestre, o gorgolejar da água correndo em forte jato, da bica talhada em gárgula de pedra, para o tanque; plácida e contínua cantilena das vozes da natureza, tão cheias de quietude e beleza A ela agradavelmente se casa, na época estival, numa melopeia bucólica, o trilo canoro de melros e rouxinóis, acoitados nas matas vizinhas, ou ọ chilrear alegre dos pardais saltitando no solo humedecido, junto ao tanque a transbordar. A água brota dos nascentes naturais existentes nos pinhais, ao alto da herdade, para as bandas do Norte, ou para lá da estrada de S. Miguel do Outeiro, e flui desses mananciais aquíferos, descendo através do campo arborizado ou das terras de cultura até cá abaixo, à granja, correndo do tanque recipiente, num contínuo e monótono cachoar, sob o leito do caminho, para os extensos lameiros fronteiros ao solar, que refresca e dessedenta à saciedade.
No meio do terreiro ergue-se ainda, como símbolo dos velhos privilégios da casa, desde há séculos, o padrão senho- rial ou de couto, enegrecido pelo mugre dos anos, pedra cilíndrica de granito com cerca de 1,5 m. de altura e em cujo topo sé encontra chumbada grossíssima corrente metálica caindo sobre o terreno. Em seus fortes elos não logrou causar dano a ação destrutiva das intempéries e o perpassar das centúrias, mercê da constituição e têmpera do metal; decorridos tantos e tantos anos, ainda se conservam incólumes. HISTÓRIA E GENEALOGIA: Segundo escreveu o nosso saudoso amigo Dr. Amadeu Ferraz de Carvalho, o edifício foi construído no século XVII ou XVIII e devia ter substituído a antiga residência do valente Gonçalo Pires da Bandeira, o da batalha do Toro, que ali teve o seu solar, o qual, como consta, nasceu em Sameiro, cavalaria do Hospital, que fazia parte da Comenda de Ancemil. Foi companheiro de Duarte de Almeida, o Decepado, na referida batalha, e pelo seu feito em Toro nobilitou-o D. João II, por carta de 1483, que diz assim: “he abilitado e feito nobre de cota darmas e dado apelido de bandeira”. Dessa carta concedida a Gonçalo Pires Juzarte extraíu o citado escritor e investigador; mais os seguintes períodos: “...avendo nos Respeito como Gonçalo pires, escudeiro da nossa casa he della merecedor por boõs e leals serviços que fez a El Rey meu Señor e padre que ds tem-S-assy nas partes dafrica como nos regnos de Castella e principalmente por na batalha que o dicto Señor que ds te e Nos com elle nos dictos Regnños de Castela em Crasto queimado ouvemos com El Rey Dom Fer- nando da qual apesar dos adverssarios ficamos louvados de vencedores no campo sendo tomada pllos contrayros a ban- deira do dicto Rey meu Señor antes da nossa victoria e levan- do a huu cavaleiro do dicto Rey Dom fernando o dicto Göça- lo Piris como home esforçado, leal e desejador da honra do dicto Rey meu señor e nossa e de nossos Regnos o encontrar e derribar e com grande perigo de Rysco de sua pessoa lha tomar durando o exercício da dicta batalha e per sy logo nol- la trazer como de todo be soomos em conhecimento e lem- brança e querendo lhe esto em alguña parte gualardoar como he reso aos que taes serviços fazem e por lhe yso mesmo fa- zer mercee temos por be e nos praz de nosso moto proprio certa sciencia poder absoluto o separarmos como de feito se- paramos de numero de plebeo e o abilitamos e fazemos no- bre de cota de armas e lha damos e outorgamos com apelido de bandeira que elle gonçalo piris e sua direita linha assim se chamarem e poderã chamar e outros nenhuus não...”.
Pelo seu casamento com Violante da Costa, filha de Fernão Nunes da Costa, o de Fráguas, passou a residir no Paço de Fráguas, de que estamos tratando, e que ainda se conserva na posse dos seus descendentes, como se vê pela nota genealógica seguinte: I-Gonçalo Pires teve um filho. II-Filipe Bandeira, c. c. Maria da Costa. III-Brites da Costa, filha destes, casou com Aleixo de Figueiredo, acusado de ter asilado o Prior do Crato, pelo que os Castelhanos demoliram em Fráguas sua casa. Sua filha, IV-Maria da Costa Bandeira, c. c. António de Abreu Pessoa, de Viseu, sargento-mor de Besteiros. Tiveram V-Filipe Bandeira, capitão-mor de Besteiros, c. c. D. Ma- ria de Castelo Branco. Seu 2.o filho, VI-Filipe Bandeira Pessoa da Costa, que tomou parte importante na Guerra da Restauração. Sua filha, VII-D. Maria Xavier, por morte de seu irmão Gonçalo Pires Bandeira, que morreu solteiro, sucedeu na casa de Fráguas. Casou c. Manuel Mosteiro Soáguas, de Britiande. Tiveram VIII-Gonçalo Pires Bandeira de Figueiredo, c. c. D. Clara Margarida de Almeida e Melo, da quinta das Escolas, Viseu. Seu filho, IX-Gonçalo Pires Bandeira, c. c. D. Luísa Genoveva, da casa de Loureiro. Sua filha, X-D. Clara Luísa Bandeira e Melo, c. c. Tomás António da Silva Gama. Sua 2.a filha, XI-D. Margarida Carolina Bandeira da Gama, c. c. Joaquim Mascarenhas de Mancelos. Sua filha, XII-D. Casimira Augusta de Mascarenhas Bandeira, c. c. António Calheiros Pita de Noronha, de Ois de Bairro. Seu filho, XIII-Gonçalo Calheiros, casou com D. Júlia Seabra Por- tela e tiveram XIV-Gonçalo Calheiros, n. em 1898, que casou com D. Ma- ria José Brito e Faro Calheiros e tiveram entre outros o Eng. Gonçalo Bandeira Calheiros, atual proprietário do Paço de Fráguas. Pelo que se deduz também desta nota genealógica, a casa atual deve ser produto da reconstrução da que possuía em Fráguas Aleixo de Figueiredo, marido de Brites da Costa, que os Castelhanos demoliram, se é que não foi de novo totalmente construída, a admitir-se como certo que a anterior foi inteiramente destruída.
LIÇÃO HERÁLDICA: Segundo a «Enciclopédia Portuguesa e Brasileira», as armas concedidas a Gonçalo Pires Juzarte Bandeira e usadas pelos seus descendentes são: De vermelho, bandeira quadrada de ouro, hasteada do mesmo, perfilada de prata e carregada de um leão de azul, armado e linguado de vermelho. Timbre: os móveis do escudo. No entanto, Armando de Matos descreve as armas dos Bandeiras da forma seguinte: De vermelho com uma bandeira de prata bordada de oiro, carregada de um leão de púrpura armado e lampassado de vermelho, e a haste de oiro guarnecida de prata. Timbre: a bandeira do escudo. Como se notará, há sensíveis divergências entre estas duas versões, sobretudo nos metais e nos esmaltes. Na pedra de armas que enobrece o Paço de Fráguas vemos, em escudo de forma mais fantasista do que convencional, semelhante ao tipo polaco, uma bandeira farpada, de duas pontas, mais propriamente flâmula ou galhardete, com borlas nas pontas; por certo intencional representação do pendão real, e assente nela um leão. Sobre o escudo, um elmo voltado à dextra, com viseira de grades, e sobreposto a ele, um leão por timbre, sobrepujado pelas mesmas peças do escudo, isto é, a bandeira de igual desenho com o leão passante. São as armas inteiras dos Bandeiras, na sua figuração clássica, estilizada. Referência: Livro Beira Alta - ano 1970 (4-trimestre) Solares Rurais da Beira (505-511) vol. XXIX.